O diagnóstico de endometriose intestinal traz consigo muitas dúvidas e, naturalmente, um certo receio quanto ao tratamento. A pergunta que mais ecoa no consultório é: “Doutora, eu vou precisar operar?”.

A resposta curta é que a cirurgia nem sempre é a primeira escolha, mas ela se torna uma aliada indispensável quando a doença começa a comprometer severamente a qualidade de vida ou a função dos órgãos.

O tratamento começa pela clínica

Na maioria dos casos, tentamos inicialmente o controle com tratamentos hormonais, ajustes na dieta e mudanças no estilo de vida para reduzir o estado inflamatório do corpo. Se a paciente está bem, com dores controladas e sem sinais de obstrução, o acompanhamento clínico rigoroso costuma ser o caminho.

No entanto, a endometriose é uma doença progressiva em muitas mulheres. Quando o tratamento conservador não é mais suficiente, a cirurgia entra em cena.

Sinais de que a cirurgia pode ser necessária

A decisão cirúrgica é baseada em um tripé: sintomas da paciente, exames de imagem (como o mapeamento de endometriose) e o risco de complicações.

As principais indicações são:

  • Falha no tratamento clínico: Quando, mesmo com o uso de hormônios e dieta, a dor pélvica e intestinal continua intensa e incapacitante. 
  • Sintomas obstrutivos: Quando a lesão da endometriose é grande o suficiente para “apertar” o intestino, dificultando a passagem das fezes e causando episódios de cólicas fortíssimas e distensão abdominal.
  • Acometimento de outros órgãos: Se o foco de endometriose intestinal estiver muito próximo dos ureteres (canais que levam a urina ao rim), a cirurgia é indicada para proteger a função renal.
  • Infertilidade: Em alguns casos específicos, a remoção dos focos inflamatórios pode fazer parte da estratégia para quem deseja engravidar. 

 

Como é feita a cirurgia?

Graças à tecnologia, hoje realizamos esses procedimentos de forma minimamente invasiva (laparoscopia ou cirurgia robótica). Isso significa cortes minúsculos, menos dor no pós-operatório e uma recuperação muito mais rápida.

Existem três técnicas principais, dependendo da lesão: 

  1. Shaving (Raspagem): Indicada para lesões superficiais. Removemos apenas o “foco” da endometriose, preservando toda a parede do intestino.
  2. Ressecção em Disco: Retiramos um pequeno “círculo” da parede do intestino onde a lesão está localizada e fechamos o local logo em seguida.
  3. Ressecção Segmental: Quando a lesão atinge uma parte maior ou mais profunda do intestino, retiramos um pequeno segmento do órgão e unimos as partes saudáveis novamente.

O papel da equipe multidisciplinar:

A endometriose não é uma doença de um órgão só. Por isso, o sucesso da cirurgia depende da parceria entre o ginecologista e o coloproctologista. Enquanto o ginecologista trata os focos pélvicos e uterinos, o coloproctologista garante que a parte intestinal seja tratada com segurança, preservando ao máximo a função do seu intestino.

O objetivo final não é apenas remover os focos da doença, mas devolver a você a liberdade de viver sem dor, de trabalhar e de ter uma rotina normal.

Sentir dor não deve ser normalizado e a cirurgia, quando bem indicada, é um passo de coragem em direção à sua cura e bem-estar.