Muitas pessoas descobrem que têm divertículos no intestino durante exames de rotina, como a colonoscopia, e passam anos sem sentir absolutamente nada. No entanto, quando um desses pequenos sacos inflama e/ou infecciona, o cenário muda completamente. É nesse momento que surge a diverticulite, uma condição que costuma causar dores intensas na parte inferior esquerda do abdômen e que exige atenção médica imediata.
Na grande maioria das vezes, a crise é leve e responde super bem ao tratamento clínico inicial. O grande perigo surge quando a inflamação evolui sem o devido acompanhamento, abrindo espaço para complicações sérias que colocam a saúde em risco.
O que é a diverticulite e como ela se desenvolve?
Para entender a doença, precisamos diferenciar dois termos. A presença dessas pequenas bolsas ou projeções na parede do cólon (o intestino grosso) é chamada de diverticulose. Ela é muito comum com o avançar da idade e pode estar ligada a dietas pobres em fibras e ao aumento da pressão dentro do intestino ao longo dos anos.
A diverticulite acontece especificamente quando uma dessas bolsas inflama (muitas vezes associada a uma microperfuração), geralmente causada pelo acúmulo de pequenos pedaços de fezes ou pela pressão local. Isso gera uma resposta inflamatória e infecciosa bacteriana. Como você pode observar na ilustração acima, enquanto o divertículo comum é apenas uma reentrância na parede do órgão, na diverticulite há um processo inflamatório ativo e doloroso em evolução.
Quando a diverticulite se torna um risco?
A diverticulite é classificada pela medicina em duas formas: não complicada (quando o processo fica restrito à parede do intestino) e complicada. Cerca de 25% das pessoas que enfrentam uma crise podem evoluir para o quadro complicado, que envolve os seguintes riscos:
Abscesso intestinal
O abscesso é uma coleção de pus que se forma ao redor do divertículo inflamado. Se o bloqueio que o corpo tenta fazer falhar, essa secreção pode aumentar, causando febre persistente e dores abdominais agudas que não cedem com analgésicos comuns e muitas vezes nem com os antibióticos.
Perfuração e peritonite
Esta é a complicação mais grave e temida. Se a parede do divertículo se rompe completamente, o conteúdo intestinal e as bactérias vazam para dentro da cavidade abdominal. Isso causa a peritonite, uma infecção generalizada do abdômen que exige cirurgia de emergência, pois coloca a vida do paciente em risco imediato.
Fístulas
Quando a inflamação é crônica e intensa, o intestino pode tentar “colar” em órgãos vizinhos para conter a infecção. Isso cria canais de comunicação anormais chamados fístulas. A mais comum ocorre entre o intestino sigmoide e a bexiga, fazendo com que o paciente apresente infecções urinárias de repetição ou eliminação de gases pela urina.
Obstrução ou estenose intestinal
Episódios repetidos de inflamação e cicatrização no mesmo local fazem com que a parede do intestino acumule tecido de cicatriz (fibrose). Com o tempo, o canal do órgão vai se estreitando (estenose), dificultando ou impedindo completamente a passagem das fezes.
Como tratar a diverticulite: do repouso à cirurgia
O direcionamento do tratamento depende exclusivamente da gravidade da crise, avaliada por meio de exames de imagem, como a tomografia computadorizada do abdômen.
Nos casos leves e não complicados, o tratamento é feito em casa. Eu costumo orientar um período de repouso intestinal com dieta de baixo residuo por alguns dias, além do uso de analgésicos e, quando necessário, antibióticos específicos de forma oral. Conforme a dor melhora, reintroduzimos as fibras de forma gradual.
Já nos casos em que há complicações, a abordagem muda:
Drenagem guiada: Abscessos maiores podem ser esvaziados por uma agulha guiada por ultrassom ou tomografia, sem necessidade de cortes.
Cirurgia eletiva (planejada): Para pacientes que persistem com os sintomas mesmo após resolucão da crise aguda ou sofrem com crises repetidas graves, que têm fístulas ou estreitamentos no intestino, o mais seguro é programar uma cirurgia para retirar o pedaço doente do cólon. Hoje, realizamos isso de forma minimamente invasiva (por laparoscopia ou cirurgia robótica), garantindo cortes menores, menos dor e um retorno rápido à rotina.
Cirurgia de urgência: Reservada para os casos de perfuração com peritonite generalizada, visando limpar a infecção e salvar a vida do paciente.
A importância da consulta e do acompanhamento médico
Se você sentir dores persistentes no abdômen, principalmente do lado esquerdo, acompanhadas de fezes alteradas, febre ou calafrios, nunca recorra à automedicação ou ao uso de laxantes por conta própria, pois isso pode agravar uma inflamação silenciosa.
