Essa é uma das frases que mais ouço no consultório e, talvez, uma das mais frustrantes para quem a pronuncia. Imagine passar por uma bateria de exames: colonoscopia, exames de sangue, ultrassom, e receber a notícia de que “está tudo bem”, enquanto o seu abdômen continua doendo, estufado e o seu hábito intestinal está um caos.

Se esse é o seu caso, saiba que você não está imaginando coisas. A Síndrome do Intestino Irritável (SII) é uma condição real, mas que desafia a lógica dos exames tradicionais por um motivo simples: ela não é uma falha no órgão mas sim no funcionamento do seu sistema digestivo. 

O que é um distúrbio funcional?

A grande diferença da SII para outras doenças (como a Doença de Crohn ou o Câncer de intestino) é que ela é um distúrbio funcional. 

Para entender melhor, pense no intestino como um carro. Se o motor fundiu ou o pneu furou, você consegue ver o estrago (isso seria uma doença estrutural). Na SII, o motor está perfeito, mas o carro não anda direito porque o sistema está mandando sinais errados.

Na prática, isso significa que:

  • O intestino está fisicamente saudável
  • A mucosa não tem feridas ou inflamações visíveis
  • Os exames de imagem não mostram nada de “errado”

Mas a dor é real, porque os nervos e músculos do intestino estão hipersínveis, reagindo de forma exagero a estímulos que deveriam ser normais, como a passagem de gases ou a digestão de certos alimentos. 

Como é feito o diagnóstico se os exames estão normais?

Muitos acreditam que o diagnóstico da SII é feito apenas por exclusão (quando não se acha mais nada) mas hoje já temos critérios bem estabelecidos, conhecidos como Critérios de Roma IV. 

Para ser diagnosticado com SII, o paciente deve apresentar dor abdominal recorrente (pelo menos um dia por semana nos últimos três meses) associada a dois ou mais dos seguintes pontos:

  • A dor está relacionada à evacuação (melhora ou piora após ir ao banheiro)
  • Mudança na frequência das fezes (começa a ir mais ou menos vezes)
  • Mudança na aparência das fezes (ficaram mais duras ou mais pastosas)

 

O papel dos exames (como a colonoscopia) é, na verdade, descartar outras doenças que poderiam imitar esses sintomas. Se os exames estão normais, e você se encaixa nos critérios acima, o diagnóstico de SII é confirmado.

Por que eu continuo sentindo dor?

A dor na SII acontece por causa da hipersensibilidade visceral. O eixo entre o seu cérebro e o seu intestino está desregulado. É como se o volume da dor no seu intestino estivesse ajustado no máximo.

 

Fatores como estresse, ansiedade, alterações na microbiota intestinal (disbiose) e a sensibilidade a certos carboidratos (os famosos FODMAPs) funcionam como gatilhos que disparam esses sinais de dor para o cérebro. 

Existe tratamento?

A boa notícia é que, embora não tenha uma cura definitiva, a SII tem controle. O tratamento é personalizado e envolve:

  • Ajustes na dieta: Identificar alimentos gatilhos e, muitas vezes, seguir uma dieta de baixo resíduo fermentável temporariamente
  • Manejo do estresse: atividade física e técnicas de relaxamento ajudam a acalmar a comunicação cérebro-intestino
  • Medicação específica: para modular a dor, o hábito intestinal e a sensibilidade dos nervos intestinais 

Sentir dor não é normal! Se os seus exames não mostram alterações, mas a sua qualidade de vida está comprometida, o próximo passo é tratar a função do seu intestino.